A Essência de Nakamoto e a Economia do Bitcoin

Tempo de leitura: 9 minutos

Da série: O Futuro das Transações e do Dinheiro

“Aqui está uma nova moeda e um sistema de pagamento. Usem se quiserem.” (Nakamoto, 2008)

Em 31 de outubro de 2008, Satoshi Nakatomo publicou essa mensagem em um fórum de discussão sobre criptografia, e lançou para o mundo o Bitcoin (BTC) em um whitepaper intitulado “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System” (Bitcoin: Um sistema Eletrônico de Pagamentos Ponto-a-Ponto). Casualmente ou ironicamente exatamente um mês depois da quebra de uma das maiores instituições financeiras dos Estados Unidos, no auge da crise americana do sub prime.

A leitura do artigo pode não revelar todos os detalhes sobre o Bitcoin, mas durante alguns meses o próprio Satoshi Nakamoto participou das discussões no fórum respondendo perguntas técnicas e econômicas sobre a sua criação, deixando claro que o Bitcoin é mais do que um sistema de pagamentos descentralizado, é uma moeda digital que não é emitida e controlada pelo governo, e cujo valor é dado pelo livre mercado.

O Bitcoin é muito mais do que um sistema de pagamentos descentralizado, ele é uma moeda digital com as melhores características que o dinheiro deve possuir.

A identidade de Nakamoto é até hoje desconhecida. Ele pode ser um experiente programador ou a representação de um grupo de programadores, pois no artigo publicado é possível encontrar trechos como “nós propomos uma solução” e “nós definimos uma moeda digital”. A verdade é que a Bitcoin e a sua arquitetura tecnológica são proposições tão fascinantes e disruptivas, que a identidade do seu criador não é, definitivamente, a questão mais importante nesse debate.

Justiça seja feita, proposições anteriores tentaram lançar moedas digitais e sistemas de pagamento, mas havia sempre um dos seguintes problemas: 1) eram propriedade de alguma empresa e, portanto, utilizavam uma lógica centralizada; e 2) falhavam em tentar resolver o problema do “gasto duplicado”. O Bitcoin resolve estes dois problemas e vai além.

Segundo Nakamoto, “o comércio pela internet veio a depender quase que exclusivamente de instituições financeiras servindo como intermediários confiáveis para processar pagamentos eletrônicos”. Dessa forma, se por exemplo a Valentina deseja enviar um dinheiro para a Mariana, ela precisa utilizar um intermediário confiável (PayPal, por exemplo), que irá processar, registrar, controlar e cobrar taxas por essa transação. Esse é o tradicional modelo centralizado e dependente de um intermediário.

O que é preciso é um sistema de pagamentos eletrônicos baseado em provas criptográficas no lugar de confiança, que permita que duas partes interessadas em realizar uma transação diretamente façam sem a necessidade de um intermediário confiável”. A partir destes trechos, Nakamoto apresenta os detalhes da arquitetura tecnológica que se propõe resolver os dois problemas anteriores, que promove a segurança do sistema e a capacidade de escala de forma descentralizada.

A expressão blockchain não aparece no artigo seminal de Nakamoto, que definiu inicialmente a arquitetura tecnológica por de trás do Bitcoin como Timestamp Server (servidor de carimbos de tempo). Com o passar dos meses essa cadeia de blocos assumiu blockchain como sua identidade, tornando-se uma das mais cobiçadas tecnologias dessa era que costumamos chamar de transformação digital.

Embora o artigo tenha sido publicado em 31 de outubro de 2008, foi no dia 03 de janeiro de 2009, exatamente as 18:15 horas, que o primeiro bloco com 50 Bitcoins foi minerado, o Bloco Gênese. Alguns dias depois foi disponibilizado de forma gratuita o software para quem desejasse participar da rede de mineradores, o Bitcoin v0.1 estava então disponível para uso em www.bitcoin.org, em código aberto, gratuito.

Nascia naquele momento uma das maiores transformações no sistema financeiro e monetário que a sociedade já criou. Em maio de 2010 a famosa transação de compra das duas pizzas por 10.000 Bitcoins foi realizada (equivalente a US$ 25,00), e em fevereiro de 2011, algo que poucos acreditaram ser possível aconteceu, e o Bitcoin alcançou a paridade de sua cotação com o dólar, 1 BTC = US$ 1,00. Alguns anos depois, em dezembro de 2017, o Bitcoin atingiu a alta histórica de 1 BTC = US$ 19.666,00.

O Bitcoin é uma forma de dinheiro tal como o dólar ou o real, é global e totalmente descentralizado, não sendo emitido ou controlado pelo governo ou uma entidade central.

O que torna o Bitcoin tão especial na perspectiva econômica?

Os economistas são praticamente unânimes em definir que uma moeda deve possuir as seguintes funções básicas: 1) ser um meio de troca: possuir mecanismos para que as pessoas utilizem a moeda para intermediação de valores, produtos ou serviços; 2) ser uma unidade de conta: representar o valor das coisas, ser referência para compra e venda de produtos ou serviços; e 3) permitir a reserva de valor: manter o poder de compra ao longo do tempo e servir como mensuração de riqueza.

A história do Bitcoin é muito recente e ainda não é possível afirmar que a moeda digital atende perfeitamente a estes três pressupostos econômicos sobre o dinheiro, mas há centenas de produtos e serviços que já podem ser adquiridos utilizando a moeda virtual ao redor do mundo, e mesmo aqui no Brasil com um mercado incipiente, a adoção do Bitcoin pelo comércio começa a dar sinais de crescimento. Por exemplo, o Shopping Paço Alfândega, em Recife, será o primeiro do Brasil a aceitar bitcoins como pagamento em todas as suas lojas, estratégia que entra em ação em janeiro de 2018.

De acordo com o site https://coinmap.org, existem 11.821 estabelecimentos físicos que aceitam o Bitcoin como moeda para pagamento, concentrados em maior parte nos Estados Unidos e na Europa. Pelo site você pode navegar e ver os detalhes de cada estabelecimento em sua região, vale a pena consultar e conhecer um pouco mais.

Tornar-se um meio de troca é essencial para que uma moeda se estabeleça como padrão para transações financeiras e para que as outras premissas se tornem reais. O Bitcoin mostra um potencial até hoje inédito entre os projetos de moeda digital que já surgiram, e há muito mais por vir.

O Bitcoin representa a evolução do dinheiro como conhecemos.

É necessário dizer, adicionalmente, que o Bitcoin possui atributos que o tornam ainda mais interessante e promissor. Ele é escasso, pois a sua oferta está limitada em 21 milhões de Bitcoins (atualmente há em circulação em torno de 16,8 milhões, e o último bloco de Bitcoin está previsto para ser minerado no ano de 2140) e a sua emissão é controlada pelo algoritmo de código aberto, distribuído e não por uma entidade central.

O Bitcoin é divisível: a menor fração da moeda é conhecidade como “Satoshi”, em homenagem ao seu criador, e representa 0,00000001 BTC. Dessa forma, ainda que a cotação da moeda cresça milhares de vezes em relação ao valor atual, toda a arquitetura tecnológica e os sistemas para transações em Bitcoins já estão preparados para permitir esse crescimento em escala.

O Bitcoin é portátil: sendo digital, ele não tem peso e não ocupa espaço. Eu posso “carregar” 0,10 ou 100.000 Bitcoins na minha carteira digital da mesma forma, a moeda está “lá”, registrada na rede blockchain de forma inviolável, e eu posso acessar a moeda de qualquer lugar apenas com uma conexão à internet. Essa característica de ser repartível e facilmente transportável é essencial para o ganho de escala.

Difícil falsificação: por ser uma moeda digital e utilizar a rede blockchain para registro das suas transações, o sistema tem se mostrado impossível de falsificar. Não há como criar um Bitcoin falso, e copiar a rede blockchain exigiria um poder computacional que inviabilizaria qualquer iniciativa nesse sentido.

O Bitcoin é a mais pura manifestação de um livre mercado global que o homem já conseguiu criar. Trata-se da essência da lei da oferta e da demanda que a economia estuda por séculos.

No entanto, há uma premissa do dinheiro que o Bitcoin ainda não alcançou: estabilidade do seu valor ao longo do tempo. A volatilidade ainda é muito alta, e já foram experimentados episódios de valorização ou desvalorização acima de 70% em uma mesma semana, aspecto que provoca instabilidade e insegurança para quem deseja entrar nesse mercado. Eu entendo que em uma questão de tempo e esse fator será minimizado.

Embora o Bitcoin como moeda representa um avanço sem precedentes na história financeira e monetária, existem óbices que precisam ser superados. Há argumentos favoráveis e contrários à adoção do Bitcoin como moeda, e essa dualidade tem tornado o debate sobre o assunto fascinante. Eu sintetizei um conjunto de pontos fortes e pontos fracos dessa moeda digital, espero contribuir com o esclarecimento sobre os aspectos positivos e negativos da maior inovação financeira que o homem já criou.

Este é o segundo artigo da série O Futuro das Transações e do Dinheiro, a cada semana um novo material será disponibilizado.

•   Publicado: Bitcoin e Blockchain – O início de uma grande transformação

•   Publicado: A essência de Nakamato e a economia do Bitcoin

•   As previsões otimistas e pessimistas para o Bitcoin

•   As controvérsias do Bitcoin: os bancos, os investidores, os governos e o público

•   Desvendando a rede blockchain e as suas potenciais aplicações

•   Blockchain: a verdadeira inovação da era Bitcoin

•   Como os Bitcoins são gerados: o ecossistema e o trabalho dos mineradores

•   Como e por que investir em Bitcoins

•   Ferramentas, dicas, aplicativos, fóruns, e muito mais. Aprenda antes de investir!

•   O que são Altcoins e as três categorias de criptomoedas

•   E mais…

Vejo você em breve!

Sobre Fabio Junges

Fabio Junges é doutor em administração, professor, empreendedor e especialista em finanças pessoais e empresariais.

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